Passos Que São História
Uma comissão de frente que não dança apenas passos, mas resgata raízes e transforma a Sapucaí em rota de ancestralidade
Quando a Portela anunciou seu enredo para o Carnaval de 2026, já se percebia que a escola tinha em mãos um projeto que ultrapassava a estética convencional: era um convite para discutir a presença negra nos rincões do Brasil e dar voz a uma ancestralidade viva. Na Marquês de Sapucaí, essa proposta ganhou corpo na comissão de frente — uma performance que não se contentou em preencher espaço, mas quis explicitar que o batuque é força, identidade e memória.
O trabalho de Edifranc e Cláudia Motta marcou uma etapa simbólica: elevar uma tradição do Sul brasileiro para o coração do carnaval carioca. A articulação de movimentos, ritmos, olhares e gestos trouxe à avenida uma celebração do que foi construído por gerações negras, ao mesmo tempo em que apontou para um Brasil inteiro como solo fecundo dessa ancestralidade. Cada passo era como dizer: “nós estamos aqui, e nossa história também faz parte deste lugar”.
E assim, a apresentação deixou de ser apenas sequência de passos ou quadro coreografado. Tornou-se manifesto. A Sapucaí virou espaço onde religiosidade, política, memória e espetáculo não são fragmentados, mas coexistem como força única. A tradição de matriz africana, muitas vezes confinada a roteiro regional ou ao folclore, ganhou um novo sistema de expressão: dança, música e corpo que falam tanto quanto o samba.
A sensação, para quem viu, foi ver mais do que movimento. Foi ver uma história escondida tornada visível, uma ancestralidade que encontrou sua voz na avenida, e um samba que não apenas carregou batidas, mas trouxe consciência. A comissão de frente da Portela, naquele momento, não aconteceu “em volta do samba”: aconteceu “dentro do samba”, como memória e discurso.

