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O Salgueiro Veste Rosa Em Forma de Baiana

A escola escolhe o símbolo mais ancestral do samba para anunciar 2026 e transformar saudade em presença viva

Há homenagens que vêm em discurso. E há homenagens que vêm em decisão. O Salgueiro escolheu homenagear Rosa Magalhães com o que há de mais emblemático na liturgia das escolas de samba: a baiana. Ao divulgar a fantasia justamente no aniversário da carnavalesca, a Vermelho e Branco faz da notícia um rito, como se dissesse que esse desfile não será apenas lembrança de uma artista gigante, mas continuação do seu traço, do seu pensamento e do seu respeito pela tradição.

A fantasia anunciada nasce do diálogo entre passado e presente. Ela é uma releitura de um figurino criado por Rosa para o Salgueiro no Carnaval de 1990, quando a escola apresentou “Sou Amigo do Rei” e mergulhou no imaginário das cortes. Esse retorno não vem como peça de museu: vem como atualização. Mantém a assinatura da professora, mas conversa com uma estética contemporânea, incorporando novas texturas, soluções e materiais que deixam evidente a intenção de trazer o desenho para o agora, sem tirar dele o que o torna inesquecível.

O significado da escolha vai além da beleza. A baiana, no carnaval, não é apenas um quesito: é fundamento, guardiã de memória, presença que carrega a escola no corpo e no símbolo. E Rosa, conhecida por sua sensibilidade e rigor, tinha nesse segmento um carinho especial. A escola reconhece isso ao colocar as baianas como “primeiro capítulo” de 2026, como se a narrativa do desfile começasse pelo sagrado, pelo que sustenta o samba desde antes de qualquer invenção mais ousada.

A emoção cresce quando a fantasia é apresentada por Tia Glorinha, presidente da ala das baianas. Há algo de profundamente humano nisso: ela desfilou com a versão original em 1990 e, agora, veste a releitura como quem fecha um círculo. O gesto transforma tecido em memória e faz da divulgação uma cena com peso de vida real. Não é apenas uma roupa bonita; é uma ponte entre épocas, entre pessoas, entre a história de uma escola e a história de uma artista.

Ao escolher esse caminho, o Salgueiro abre 2026 como quem acende uma vela antes de iniciar a caminhada: com reverência, com consciência, com a certeza de que tradição não é freio, é potência. A fantasia revelada fala de continuidade, de respeito e de herança criativa. E, acima de tudo, diz algo que a avenida entende sem explicação: Rosa está presente. Não como ausência a ser lamentada, mas como traço que ainda desfila.