A Avenida Cantou Com A Alma Vermelha
Salgueiro transforma ensaio em espetáculo de memória, técnica e emoção em alta densidade artística
O Salgueiro entrou na Sapucaí como quem carrega um compromisso sagrado: homenagear Rosa Magalhães com grandeza, com intenção e com coração. Na segunda noite de ensaios técnicos, a escola pisou forte e fez da avenida um lugar onde a comunidade canta com a alma, onde a arte não aparece como enfeite e onde cada quesito parece conversando com o enredo. Há uma sensação rara de unidade quando isso acontece: o samba não é apenas executado, ele é vivido. E o que se viu foi um Torrão Amado aguerrido, consciente do momento, com uma entrega coletiva que transforma treino em acontecimento.
A comissão de frente veio como memória afetiva em estado de dança. Paulo Pinna e seus quinze componentes apostaram numa proposta saudosista, relembrando a icônica criação apresentada pela Imperatriz em 2004, com bruxas em cena e um jogo simbólico que inverte cores e sentidos. Sem elementos cênicos, a força ficou toda na coreografia: solta, expansiva, ocupando a pista inteira com desenho limpo e leitura clara. A execução exigia alinhamento e sincronia de altíssimo nível — e o Salgueiro respondeu com segurança, sem ruídos, com caracterização primorosa que ajudou a construir a atmosfera mística sem precisar de nenhum artifício.
No pavilhão, Sidclei Santos e Marcella Alves viveram mais uma noite de excelência que parece assinatura. Vestidos de branco, pontuados por rosas vermelhas, arrancaram aplausos como quem não precisa provar nada — apenas confirmar. A sintonia entre os dois é tão evidente que a dança parece telepática: Sidclei galanteia e conduz com técnica e charme, enquanto Marcella sustenta o pavilhão desfraldado com controle absoluto, mesmo com a limitação do longo mastro que exige ainda mais domínio do corpo. É um bailado maduro, impactante, de referência, daqueles que colocam o quesito em um patamar onde o erro parece não caber.
E então a alma da noite se revelou no canto. O samba caiu de vez na boca do povo porque o Salgueiro entendeu, como comunidade e como escola, o tamanho dessa homenagem. Da avenida às arquibancadas, havia gente brincando de carnaval com seriedade emocional: cantando forte, cantando junto, cantando com sentido. Igor Sorriso conduziu com segurança, e o desenho musical se mostrou inteiro, amarrado, com o samba ganhando vida própria na pista, impulsionado por uma comunhão que transcende a técnica e vira arrepio.
Na evolução, porém, a rua também cobrou atenção. O andamento oscilou de forma acentuada, alternando momentos mais lentos e acelerações evidentes, sobretudo após a entrada da bateria no segundo recuo. Em alguns trechos, alas precisaram se espaçar para evitar clarões na pista. É o tipo de ajuste que ensaio técnico serve para revelar: correção possível, necessária, e que, sanada, tende a transformar um grande ensaio em um desfile ainda mais sólido. Mesmo com isso, a vibração dos componentes e a espontaneidade foram constantes, como se a escola sustentasse alegria e garra do início ao fim.
E houve imagens que ficaram. Viviane Araújo, em estado de graça, atravessou a avenida vestida de cisne, toda de branco, evocando uma memória direta do carnaval de Rosa na Imperatriz. E no paradão da bateria, o ensaio tocou o lado mais sensível do público: o violino desenhou emoção no ar, bexigas vermelhas, brancas e rosas subiram ao céu, e uma luz rosa banhou a Sapucaí com um efeito de celebração íntima, como se a escola enviasse, em silêncio e canto, um carinho para alguém que mora no alto.

