A Palavra Vira Avenida
Com Carolina no comando da cena, a Tijuca une emoção, afirmação e comunidade cantando como discurso
O primeiro ensaio técnico da Unidos da Tijuca em 2026 teve um tom que não se confunde: não era só treino, era posicionamento. A escola entrou na Sapucaí com uma narrativa afiada, tratando Carolina Maria de Jesus como farol e como espelho. A sensação foi de coesão: tudo parecia mirar o mesmo alvo, como se o samba, a coreografia e o comportamento da comunidade estivessem alinhados para transformar a história em presença — e a presença em recado.
A comissão de frente foi o coração desse recado. O movimento nasce do texto do samba e se organiza como dramaturgia simples, porém incisiva. Carolina se apresenta, chama, enfrenta, se levanta. A passagem pela dor não é decorativa: é imagem forte, sustentada pelo corpo, pela elevação, pelo grito. E quando esse grito muda de natureza e vira libertação, a cena entrega uma virada que o público entende sem explicação. A entrada dos símbolos, a bandeira aberta, a frase que insiste na continuidade da luta e o livro surgindo como memória concreta amarram o quadro com um tipo de clareza que dá força: a comissão não tenta confundir, tenta comunicar.
O casal veio com a elegância de quem sabe o peso do momento. Matheus Miranda e Lucinha Nobre dançaram com leitura clássica, mas com marcas de identidade que conversam diretamente com a narrativa do desfile. O figurino dourado sustenta a imponência e reforça a ideia de superação, como se o pavilhão atravessasse a avenida altivo, sem pedir permissão. Há delicadeza no trato, reverência e parceria, e isso se nota não apenas no gesto amplo, mas nos instantes pequenos — aqueles que fazem um quesito ganhar humanidade.
A comunidade, por sua vez, cantou como protagonista. O samba já parece estar dentro da boca do componente, e isso muda o jogo: quando o canto é apropriado, a obra deixa de ser “da escola” e vira “da comunidade”. Alguns versos ganham destaque pela forma como são projetados, com firmeza e entendimento, como se cada palavra carregasse uma intenção. A condução do carro de som aparece segura, sem ornamento em excesso, empurrando o samba para frente e preservando o canto coletivo como eixo emocional. No trecho final, há sinais de desgaste e pequenas oscilações, mas a Tijuca ainda fecha com energia em alas que mantêm a chama acesa até o último metro.
Na parte rítmica, a base é sólida: a bateria segura a cadência, atravessa ajustes de som e logística sem perder a regularidade, e ajuda a sustentar o canto mesmo quando o ambiente técnico exige adaptação. Com evolução solta e fluida, a escola mostra uma combinação promissora: rapidez no deslocamento sem travar o corpo, e liberdade no corpo sem perder o desenho. No fim, a impressão é nítida: a Tijuca transformou Carolina em discurso potente — e colocou a Sapucaí para cantar junto.

