SÉRIE OURO

Santa Cruz traz o Reino do Daomé e suas guerreiras para o Carnaval 2027

A Acadêmicos de Santa Cruz lançou oficialmente, neste sábado, durante sua tradicional feijoada, o enredo que levará à Avenida no Carnaval 2027.

Com o título “Daomé, a Esparta Negra das Agojiê”, a agremiação contará a história do antigo Reino do Daomé, atual Benim, destacando a força, a coragem e a resistência das Agojiê, o lendário exército feminino do reino.

O enredo propõe uma celebração da história africana e da potência das mulheres negras, além de estabelecer conexões entre a herança do Daomé e manifestações culturais e religiosas presentes na diáspora africana no Brasil.

A festa contou com a participação especial da coirmã São Clemente e reuniu comunidade, convidados, segmentos da escola e profissionais da imprensa carnavalesca.

O lançamento dá início à preparação da Santa Cruz para o Carnaval 2027, quando a escola retorna à Marquês de Sapucaí com um desfile marcado por força, ancestralidade, identidade e emoção.

Enredo: DAOMÉ, A “ESPARTA NEGRA” DAS AGOJIÊ

Justificativa:

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Santa Cruz saúda em honra a “Grande Mãe” para carregar em seus braços toda a força ancestral que dela emana. Lança o seu olhar para a nossa origem e matriz identitária como um guia para enxergar a beleza e nobreza de que somos feitos. Em uma espécie de ritual de gratidão clama “AXÉ ODÕ”. Invocando o poder purificador e renovador das águas para buscar paz, equilíbrio, harmonia e prosperidade para o seu desfile. Faz assim a travessia inversa da Calunga para resgatar uma história perdida no tempo para além do porto de dores e agonia e de tantas partidas sem retorno.

Ventos vindos da costa da África Ocidental do poderoso reino do Daomé sopram a inspiração e nos trazem uma história incomum que guarda a essência e o poder do sagrado feminino. Esse reino expandiu suas fronteiras e incorporou outras nações, fundindo a sabedoria do povo Fon com outros matizes étnicos que lá se mesclaram, pincelando diferentes culturas que fazem parte de nossa formação. Essa herança diversa vai colorir a avenida com seus tons. O panteão dos Voduns, unindo o sagrado e o mundano, vai iluminar os nossos caminhos para revelar uma saga de coragem, fidelidade, organização, corporativismo, irmandade, renúncia, resiliência e principalmente de resistência nunca antes testemunhada.

Apresentaremos uma “Esparta Negra”, formada por felinas defensoras de seu clã. Um exército extraordinário de mulheres que lutaram e morreram sem medo pelo seu povo defendendo a soberania de um reino que acreditava que elas poderiam ocupar espaços de poder em igualdade com o homens. Nosso samba faz reverência e tenta buscar no legado deixado pela trajetória das Agojiê, as guerreiras do Daomé, a força para conduzir nossa passagem para ressaltar o que ainda ressoa em nossa alma e que nos transporta para o colo de todas as “grandes mães”, mantenedoras do conhecimento ancestral. Que nosso canto seja um reconhecimento e uma forma de agradecimento à semente que plantaram em nosso solo. “AGÔ NU KWE”. Pedimos respeitosamente licença e passagem ao poder que elas derramam usando a expressão litúrgica do nosso Candomblé originada nos dialetos da família linguística Gbe como uma deferência aos nossos ancestrais e divindades.

Sinopse:

Que abram-se as alas de nossa origem africana, que os olhos se voltem para alma que é chama. A força e a coragem de resistir e reexistir, com bravura insana, vem do materno ventre que emana a grandeza e a nobreza que ela alcança: a saga no sangue que carregamos nas veias de orgulho e herança.

Vai o samba que nos agita e nos inflama ao refluxo do grande mar de agruras, das vagas antepassadas que um dia se fizeram conjura de dor e agonia na travessia da Calunga. Vai, como o toque de Alujá, a justiça navegante em manifesto, é o presente à revisar o passado de uma história apagada, mas que ainda é esboçada em vozes submersas no tempo do glorioso Reino do Daomé.

Deixe-se espraiar no seio dessa terra, no derradeiro cais que agora abraça o mesmo porto, de onde um dia, muitos não regressaram jamais. Ouçam das bocas que hoje cantam e contam histórias de ouvir contar a sina que se espelha nos olhos vigilantes de nossas mães destemidas que, como um farol, espalham e iluminam, sobre os filhos dessa terra, falange protetora a exibir as garras felinas, como panteras de uma “Esparta Negra”. Fiéis guardiãs do rei e de seus domínios, mulheres de poder e de bravura, entrincheiradas sob o manto do respeito e coroadas de sororidade, reinando igualmente nesse pedaço de África.

Eis aqui o Reino do Daomé, do povo “Fon”, matriz de primazia, que se mesclou na pele de “Ewes” e “Ajás”, de aura espiritual latente, do mito da criação, envolto na magia do seu Panteão. Lar ancestral dos Voduns, elos sagrados atando a corrente entre o mundo visível e invisível. Céu e Terra, Água, Ferro e Fogo da guerra, da saga e do caminho desse reino imponente, feito de toda gente, de beira mar, Uidá, Mina Jejê, da savana, Mahi e além, tentando em vão se expandir até Oyó, dinastia de Xangô Obá assentado ao trono do trovão da Nação Iorubá Nagô. São entes encantados, antepassados, manifestação de fé a selar o destino de renúncias e celibato dessas bravas guerreiras ao ungir suas cabeças como “Mulheres Rei”, revestidas de coragem, de coração duro e valente, mas em que ainda há no fundo ardente materno a determinação para cumprir o destino de seguir a luta sem medo de mãos armadas, com olhos astutos e ágil instinto de mães leopardo, prontas à defender seu clã.

Essas guerreiras representam uma realidade crua, que deve ser vista não com o olhar de julgamento, mas com a consciência de que defendiam aquilo que se fazia necessário pela sobrevivência, pela lealdade ao seu lugar e o entendimento de que eram práticas adotadas por todos os povos da grande “Terra dos Afris”, antes mesmo das invasões coloniais.

As AGOJIÊ, foram mulheres que lutaram por uma causa, que renunciaram muitos de seus direitos naturais, que viveram e morreram por sua nação. As que sobreviveram tiveram que reconstruir suas vidas, algumas, depois da derrota para o poderio bélico europeu, experimentaram atravessar o portal do “Cais da Despedida” e cruzaram o mar rumo ao desterro e ao desconhecido novo mundo. Levavam consigo sua bravura e sua fé, e sem dúvida se tornando inspiração para tantas outras mulheres em todas as linhas do tempo de nossa história distorcida. Elas deveriam ser retratadas como uma memória que ainda ressoa nas lutas contemporâneas por reconhecimento do poder das mulheres.

Trazê-las à luz da representatividade e de um olhar para o sagrado feminino que elas carregavam na alma, as devolve a verdadeira face por trás da conduta impassível e endurecida das lutas corpo a corpo, e as revela, em sua essência, impregnadas de suas crenças, saberes e práticas rituais que promoviam a manutenção da circularidade do conhecimento inerentes às sociedades matriarcais de cooperação e irmandade. Devemos enxergá-las inseridas em uma cultura rica que sempre reverenciou o respeito à ancestralidade e com uma profunda conexão com a natureza e seus mistérios. Entendê-las no emaranhado de influências das diferentes etnias que formavam a pluralidade do povo do Daomé nos faz perceber uma identificação imediata com o que trazemos em nós como nação, que bebeu dessa fonte em sua formação. Nos reconhecermos nelas as coloca num lugar de reparação histórica, as devolve para o patamar de precursoras das nossas lutas, nos inspira a contar que aquilo que se tenta saquear e sequestrar da identidade de um povo permanece como um tecido vivo que se tece ao longo do tempo, ecoando em vozes descendentes que se mantém no presente também como guardiãs dessa memória ancestral.

Louvamos nesse enredo as “Grandes Mães Leopardo” que ainda defendem seus ideais e seus clãs desde a diáspora. “Mulheres Rei” que reinaram e ainda reinam em seus “Quilombos”, “Pequenas Áfricas”, onde defendem sua cultura, sua fé e seus direitos, com a mesma bravura e com as mesmas renúncias por uma causa coletiva. Salve essas “Panteras Negras” de todas “Espartas” que a desigualdade mundo afora fez criar.

Viva a Santa Cruz por defender sua origem, proteger sua “Pequena África” e honrar a sua “Grande Mãe”! “Lembrar para jamais esquecer”. Que nosso samba seja feito em reverência para que elas desfilem nessa avenida, com todo poder que delas emana.

Carnavalesco: Alexandre Louzada