Tamborzão na veia: a Unidos da Ponte faz o funk bater dentro do samba
No caminho para 2026, a escola de São João de Meriti transforma “baile” em enredo e identidade em manifesto
A Unidos da Ponte chegou ao minidesfile da Série Ouro como quem liga o paredão antes mesmo de a rua pedir. E não foi efeito, foi recado. Com o enredo “Tamborzão: O Rio é Baile! O Poder é Black!”, a azul e branca colocou o funk no centro da narrativa e mostrou, com corpo, canto e atitude, que essa conversa com o samba não é moda nem provocação gratuita: é origem, é comunidade, é pulsação que nasce do mesmo chão e volta em forma de arte.
A cena tinha figurino de baile, coreografia de quem sabe que o quadril também é linguagem, e um entusiasmo que não parecia ensaiado, parecia vivido. O mais bonito foi ouvir a própria escola explicar o que estava fazendo, como se cada componente fosse um pedaço do argumento. O muso oficial Rodrigo Para-Assú falou do funk como cultura preta e popular, como porta de entrada para artistas e sonhos, e ainda brincou com a estética do momento, trazendo para o visual uma referência contemporânea que traduz essa ponte entre a rua e o palco.
Na ala da comunidade, o sentimento era direto, quase infantil de tão verdadeiro: a alegria de ver duas paixões virarem uma só. Guilherme Ribeiro, jovem de Meriti, mostrou que o samba também se aprende pelo amor e pela permanência, e que quando funk e samba se encontram, o corpo entende antes da cabeça. Já na Velha Guarda, Suzy Santos trouxe uma leitura que atravessa tempo: dos tambores ancestrais ao batidão de hoje, como se a batida moderna fosse continuação de uma mesma linha histórica, só com outra roupa e outra velocidade.
E quando aparece uma MC dentro da escola, a proposta deixa de ser tema e vira destino. MC Yasmim, estreante na Ponte, falou do enredo como oportunidade de início, de voz, de carreira e de emoção, acompanhada da mãe, como quem leva família para dentro do sonho. Ao lado dela, Selma Gomes, diretora de harmonia e apaixonada por bailes desde a juventude, revelou que o enredo também desperta memória afetiva: o Carnaval, afinal, é um arquivo vivo de quem a gente foi e de quem ainda quer ser. Na comissão, a bailarina Liliana Campos resumiu com a confiança de quem está no miolo da criação: essa mistura vai surpreender.
A Ponte sustenta a ideia com um detalhe que amarra tudo: o ritmo. A conversa entre tamborzão e bateria aparece como encaixe natural, não como enxerto. Tem pulso, tem BPM que conversa, tem exigência de evolução e sincronismo, tem bossa que encontra espaço. E, por trás do espetáculo, existe um tema que a escola faz questão de encarar: o preconceito. O funk, como o samba um dia, carrega estigmas, criminalizações e olhares tortos, mesmo sendo voz do povo. Quando a comunidade canta e defende, ela não está só aquecendo para o desfile. Está dizendo que cultura não pede permissão.
No fim, fica a impressão de que a Unidos da Ponte não quer apenas “levar funk” para a Avenida. Quer levar um discurso de pertencimento que atravessa gerações, do melody antigo ao batidão de hoje, e que cabe inteiro numa frase que vira refrão de vida: “Eu só quero é ser feliz”. E quando isso vira enredo, o Carnaval deixa de ser vitrine. Vira espelho.

