O samba da Vila Isabel caiu na boca do povo e virou hino antes da Avenida
Quando uma obra atravessa a arquibancada invisível do pré-carnaval, ela deixa de ser “da escola” e passa a ser do Carnaval inteiro
Há sambas que nascem para defender um enredo. E há sambas que, antes mesmo do desfile, já começam a cumprir outra missão: unir o povo do Carnaval em torno de uma mesma emoção. O samba da Vila Isabel para 2026 é desses. Desde que as parcerias foram anunciadas, uma composição se adiantou no imaginário coletivo — assinada por André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho — e, quando foi escolhida, pareceu menos uma vitória de disputa e mais um reconhecimento inevitável: a obra já estava acontecendo nas ruas, nas rodas e no canto de quem nem veste azul e branco.
Os números apenas confirmam o que o ouvido já sabia. A versão de disputa, na voz de Wander Pires, ganhou tração de fenômeno e o samba passou a circular como música de temporada, não apenas como “samba de escola”. Mas o dado mais importante não é estatístico: é humano. A cozinha, a calçada e a arquibancada informal do pré-carnaval começaram a repetir os versos com aquela convicção que só aparece quando o samba encosta no coração.
O mais revelador é como esse entusiasmo atravessa fronteiras. Sambistas que não torcem pela Vila se renderam. Há quem diga que é samba “para quem tem entendimento”, desses que mexem com o público inteiro e criam arrepio coletivo. Há quem reconheça a força do canto e a vibração da escola, já projetando briga lá em cima. Há quem chame de antológico — daqueles que marcam uma década — ainda que cobre mais empolgação de performance. E há quem resuma tudo com a frase que vale ouro nesta época do ano: “está na boca do povo”.
Em 2026, a Vila Isabel levará para a Avenida o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, desenvolvido por Gabriel Haddad e Leonardo Bora, com enredo de Vinicius Natal, em homenagem ao multiartista Heitor dos Prazeres. E talvez o maior sinal de força seja este: quando o samba já vence a rua antes de vencer a Sapucaí, ele chega no desfile com um patrimônio raro — a vontade coletiva de cantar junto.

