Cada Mulher Tem Sua Carolina
Quando a homenagem vira pulsação coletiva, a rua se transforma em testemunha de histórias que resistem
O encerramento do minidesfile da Unidos da Tijuca ganhou peso de acontecimento quando a ala cênica “Canindé” começou a caminhar. Ali, não havia apenas corpo e movimento: havia história carregada de significado. A escolha de centrar a encenação em Carolina Maria de Jesus foi mais do que temática de enredo; foi a abertura de um espaço para que mulheres de diferentes idades, trajetórias e vivências pudessem se reconhecer e se afirmar. Cada gesto, cada olhar e cada passo tornaram-se declaração de identidade, um modo de dizer que a trajetória de Carolina ressoa dentro de muitas vidas espalhadas pelo Brasil.
O processo de construção da ala revelou que a emoção estava na raiz de tudo. Para a equipe artística, a sensação foi de intensidade difícil de traduzir em palavras porque emergia de um lugar profundo: a conexão entre a obra e a experiência individual de cada componente. A encenação não se limitou a trazer Carolina “lá em cima”; foi uma tentativa de trazer seu espírito para dentro do coletivo, de traduzir dor e dignidade em expressão corporal e narrativa visual que dialoga com quem assiste e com quem desfila.
Mulheres de diferentes caminhos — da dança ao teatro, da produção de eventos à vida cotidiana — encontraram na homenagem um espelho. Cada uma delas carregou uma versão de Carolina em si, uma história que se cruza com a de uma mulher que escreveu sobre fome, desigualdade e sobrevivência em uma realidade dura e desafiadora. Essa multiplicidade de Carolinas transformou a ala em manifestação viva de representação e reconhecimento, como se a rua fosse extensão de um palco onde histórias mulheres ecoam sem pedir licença.
Quando a “Canindé” concluiu sua passagem, restou a impressão de que algo maior havia acontecido: não apenas uma homenagem à escritora, mas um gesto coletivo carregado de emoção, memória e protesto. Foi como se a rua tivesse se tornado testemunha de uma encenação que pulsa vida, luta e presença de mulheres que, em seus modos próprios, carregam a figura de Carolina como símbolo de resistência e afirmação.

