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O Samba Atravessa Fronteiras

Em Nilópolis, a Vila Isabel prova que sua força é a comunidade cantando, mesmo fora do seu próprio quintal

Há um tipo de ensaio que não se mede pela quantidade de alas completas, nem pelo conforto do território, nem pela facilidade do público. Mede-se pela capacidade de uma escola se manter inteira quando o ambiente muda. E a Vila Isabel, na Avenida Mirandela, viveu exatamente isso: uma travessia. Ao lado da anfitriã, ela chegou com o peso de um encontro que carrega história e, ao mesmo tempo, com a leveza de quem confia no próprio samba. O resultado foi uma escola que, mesmo em formato reduzido, conseguiu impressionar pelo vigor do canto e pela energia da comunidade, transformando a rua em celebração de raízes.

O enredo que olha para Heitor dos Prazeres e para a Pequena África não aparece como discurso distante. Ele se manifesta como corpo em movimento. A comissão de frente abre o caminho com um desenho que conversa com roda, palma, circularidade, e com referências que aproximam dança, capoeira e a força dos cultos de matriz afro. Sem fantasia para proteger a cena, a coreografia fica ainda mais transparente: o que se vê é a ideia pura, sustentada por sincronia e presença, como um chamado que encontra resposta no canto que vem atrás.

No primeiro casal, a sensação é de maturidade refinada. Existe elegância, existe cuidado com o pavilhão, mas existe principalmente expressividade. Os passos não são apenas corretos: são falados. E quando o casal se comunica pelo olhar, antecipando cada deslocamento, a dança ganha fluidez de conversa, não de obrigação. A apresentação se torna um ponto de estabilidade emocional dentro do cortejo, como se ali a escola respirasse com mais calma, reafirmando quem é.

A harmonia trouxe uma lição importante: a Vila cantou mesmo quando o cenário não era o mais favorável. Com alas misturadas para compensar ausências, a escola encontrou um jeito de seguir sem perder potência vocal, e isso revela algo decisivo para um samba crescer: quando a comunidade está segura da obra, ela sustenta o canto mesmo fora do desenho perfeito. A condução ajuda, claro, mas o que vibra é a naturalidade de quem canta porque quer, não porque foi empurrado.

A evolução se manteve bem organizada sob orientação, com destaque para alas coreografadas no primeiro setor, de passos acessíveis, pensados para unir mais gente no mesmo movimento. E há um detalhe que diz muito sobre adaptação: o ritmo do cortejo. O começo mais acelerado e o final mais cadenciado parecem um ajuste de leitura ao tamanho da avenida, maior do que o espaço habitual de ensaio. A escola precisou administrar tempo e distância, e isso, na prática, é treino de desfile: entender a pista, sentir o fluxo, calibrar o passo sem perder o samba.

O canto, no entanto, foi o grande protagonista. A comunidade mostrou domínio total da letra, cantando de ponta a ponta, enquanto o público, mais distante da obra, aderiu com força ao refrão. Nas paradinhas, a Vila precisou ser ainda mais dona do próprio som, conduzindo a energia com voz e presença para que a rua não engolisse a escola. E ela conseguiu. O carro de som e a bateria funcionaram como coluna vertebral dessa condução, mantendo o samba compreensível, pulsante e ensinável, sem deixar a vibração cair.

No fechamento, a festa apareceu com rosto próprio: musas em destaque, interação respeitosa com a comunidade local, e uma bateria que testou paradinhas e pequenas coreografias de ritmistas, criando espetáculo sem perder firmeza. A Vila Isabel saiu da Mirandela deixando uma mensagem clara: quando a escola tem comunidade, tem canto e tem propósito, ela pode transformar qualquer avenida em Pequena África por algumas horas. E isso não é só bonito. É poderoso.