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O Ney Que Não Cabe Num Só Quadro

Entre recorte e vertigem criativa, a Imperatriz prepara uma comissão de frente que transforma desafio em linguagem de avenida

Há artistas que a avenida consegue retratar com facilidade: um símbolo, uma imagem, um gesto. Ney Matogrosso não é desses. Ele é movimento, mudança, máscara e verdade ao mesmo tempo. E por isso a Imperatriz Leopoldinense decidiu tratar a comissão de frente como manifesto de pluralidade: em vez de tentar “definir” o homenageado, a escola assume que o melhor retrato é a soma de possibilidades — e que cada nova apresentação pode revelar um Ney diferente, sem que isso seja contradição.

O coreógrafo Patrick Carvalho descreve essa criação como um campo aberto: seria possível inventar uma comissão nova a cada ensaio, porque o repertório, os visuais e a trajetória do artista oferecem camadas demais para caber num único gesto. É aí que entra o método: escolher um foco, segurar a ansiedade de falar sobre tudo, e transformar essa escolha em potência cênica. A orientação de Leandro Vieira funciona como corte preciso: não é sobre acumular referências, é sobre dizer algo que a pista compreenda, rápido, sem perder a emoção.

E 2026 traz um ingrediente extra: a mudança nos critérios de avaliação das comissões de frente. A resposta criativa vem em formato de avenida inteira: uma coreografia pensada para ser lida em 360 graus, com intenção de alcançar todos os lados, como se cada jurado precisasse sentir, no seu ponto de visão, que aquele instante foi feito para ele. Não há tempo para explicar — há tempo para impactar. A dança vira um recado curto e contundente, com clareza de narrativa, ocupação total do espaço e um desenho que não depende de exclusividade.

Ao mesmo tempo, a escola aposta num samba construído por junção, estratégia que já mostrou força em outros carnavais e que volta como promessa de resposta coletiva. O argumento é simples e poderoso: quando a comunidade abraça, a avenida devolve. E a Imperatriz quer sentir esse retorno no primeiro ensaio técnico — aquele instante em que o canto deixa de ser expectativa e vira prova, quando o público começa a cantar junto e a escola percebe que a obra já pertence ao povo.

No fim, a comissão de frente camaleônica não nasce para encerrar Ney num quadro. Nasce para provar que o próprio ato de mudar é parte da homenagem — e que a Imperatriz pode transformar essa multiplicidade em leitura clara, emoção imediata e espetáculo que gira, como o artista sempre girou, sem perder a identidade.