A Tabajara Encontra Seu Tom de 2026
No Setor 11, a Portela faz do ritmo uma narrativa e aponta uma avenida guiada por alegria, precisão e canto de arquibancada
Há um tipo de ensaio que diz mais do que qualquer frase: quando a bateria pisa a pista como quem pisa um terreiro, com respeito e consciência do que aquele chão representa. Foi assim no Setor 11. A Portela levou sua Tabajara do Samba para o trecho final da Passarela e transformou a noite em afirmação de identidade musical, conduzida por Mestre Vitinho em sua primeira experiência à frente dos ritmistas portelenses naquele cenário. E logo ficou evidente que a proposta não é apenas tocar bem: é tocar com sentido, com desenho, com integração, com o corpo inteiro da escola dentro do ritmo.
Vitinho tratou o Setor 11 como aquilo que ele é na prática: o lugar de reconhecer campo antes do jogo e, ao mesmo tempo, o espaço mais confortável para refinar sem ansiedade. O ensaio foi de encaixe e lapidação, com arranjos ajustados, convenções observadas e uma busca permanente por excelência para chegar nos ensaios técnicos com tudo limpo, respirando. A comparação com futebol aparece como metáfora perfeita: existe o treino, existe o “jogo de ida” e existe o dia em que o estádio inteiro te espera. A Portela quer que a espera seja por impacto.
O impacto vem da musicalidade pensada em conjunto. A bateria, em 2026, não pretende ocupar espaço sozinha: pretende pulsar com a escola, costurando o canto com o carro de som e convidando o público a entrar no espetáculo. A promessa mais sedutora é justamente essa: arranjos com coreografia, bateria dançando com o próprio som, e momentos em que o silêncio vira palco para a comunidade explodir no canto. A rua e a arquibancada deixam de ser plateia; viram resposta. Quando isso acontece, o ritmo não é apenas ritmo: é narrativa.
A presença de segmentos além da bateria reforçou o recado de unidade. Passistas, cobertura do recuo e direção de carnaval ajudaram a construir a dinâmica real do desfile, aquela em que tudo depende de som, andamento e entendimento coletivo. E o samba de 2026, segundo a própria leitura interna da escola, já começa a mostrar esse fenômeno raro: ele deixou de ser apenas uma obra escolhida e passou a ser assumido como hino, cantado com intensidade de alma, força, emoção e técnica, dentro de uma curva de crescimento que precisa terminar lá em cima no domingo de Carnaval.
Zé Paulo destacou a importância do ensaio para exercitar apresentação e conteúdos de bossa, mesmo sem expor tudo, lembrando que o essencial é manter andamento e rendimento mesmo quando o som não é o ideal para uma bateria tão grande. E há, ainda, um subtexto humano que dá calor a tudo: a parceria entre intérprete e mestre, desejada há tempo, agora acontecendo em meio a um contexto de dor, mas também de sonho realizado. Esse tipo de laço, quando é verdadeiro, vira vantagem musical: porque o entendimento não precisa ser explicado, ele acontece.
No Setor 11, a Portela mostrou que está construindo uma identidade que mistura fundamento e alegria, precisão e festa, arranjo e povo. E quando uma Portela feliz se forma, a avenida entende antes de todo mundo: a felicidade, ali, não é enfeite. É estratégia.

