RIO CARNAVAL

As histórias que vão tomar a Sapucaí em 2027

O Carnaval 2027 do Rio está tomando forma na Marquês de Sapucaí e o que se vê é um panorama bem interessante. As escolas do Grupo Especial já começaram a revelar seus enredos, e a tônica geral aponta para uma edição mergulhada em literatura brasileira, ancestralidade afro-brasileira, cultura popular e grandes personagens históricos que moldaram o Brasil.

A União de Maricá abre os desfiles do domingo, 7 de fevereiro, com uma celebração ao educador Darcy Ribeiro. Sob direção de Edson Pereira, a agremiação da Região dos Lagos propõe explorar a visão antropológica do intelectual sobre a formação do povo brasileiro, resgatando seu sonho por um país mais justo e democrático. A conexão é pessoal: Darcy escolheu viver em Cordeirinho nos anos 90.

Logo em seguida, a Beija-Flor de Nilópolis homenageia Zeneida Lima, pajé e escritora do Arquipélago do Marajó. Com João Vitor Araújo à frente, o desfile mergulha nos saberes ancestrais amazônicos, na pajelança cabocla e na atuação ecológica da personagem, conectando espiritualidade, natureza e preservação.

O Paraíso do Tuiuti traz um tributo a Tia Ciata, Hilária Batista de Almeida, considerada figura fundamental no nascimento do samba carioca. Renato Lage conduz um desfile que promete revisitar a Pequena África, as rodas de samba e a resistência das tias baianas no Rio.

A Vila Isabel segue com adaptação do romance premiado Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. Gabriel Haddad e Leonardo Bora conduzem a narrativa da luta quilombola pela terra no sertão baiano, incorporando elementos do Jarê, religião de matriz africana da Chapada Diamantina.

Na segunda-feira, 8 de fevereiro, a Mocidade Independente de Padre Miguel questiona o eurocentrismo com base na obra América Invertida (1943), do artista uruguaio Joaquín Torres García. Jack Vasconcelos encena uma visão do continente americano invertido, resgatando identidade e soberania latino-americana.

A Unidos da Tijuca se inspira em A Cabeça do Santo, livro de Socorro Acioli desenvolvido a partir de oficina com Gabriel García Márquez. Lucas Milato traz o realismo mágico nordestino para a avenida, com a história de Samuel e uma pequena cidade cearense marcada pela presença de uma gigantesca cabeça de Santo Antônio.

Os Acadêmicos do Salgueiro revisitam Xica da Silva com olhar renovado. Jorge Silveira e Leonardo Antan propõem um reboot do imaginário, fugindo de visões estigmatizadas e baseando-se no livro Laroyê Xica da Silva para destacar o protagonismo da mulher negra. Vale lembrar que foi no terreiro do Salgueiro, em 1963, que essa trajetória alcançou o mundo em desfile lendário.

A Imperatriz Leopoldinense completa o elenco do domingo com enredo ainda sendo revelado. O cenário geral aponta para uma edição que prioriza narrativas profundas, resistência e valorização das raízes culturais brasileiras.