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Mocidade inverte o mapa e questiona por que a gente adora o que vem de fora

A Mocidade Independente de Padre Miguel vai abrir o desfile de segunda-feira do Carnaval 2027 com uma ideia que mexe mesmo no cerne da gente: por que a gente acha que o melhor está sempre no Norte? O enredo “Latinamente Independente: Nosso Norte é o Sul em Remanifesto” parte de um lugar bem específico, uma obra que poucas pessoas conhecem mas que faz toda a diferença quando você vê.

Estamos falando do quadro “América Invertida”, criado pelo artista uruguaio Joaquín Torres García em 1943. A brincadeira dele era simples e genial: colocar o mapa da América do Sul de ponta-cabeça, questionando por que no mapa tradicional o Norte sempre fica em cima e, consequentemente, parece ser superior. Isso não é só coisa de mapa, não. É toda uma estrutura de poder que vem desde o colonialismo, quando a Europa decidiu como a gente deveria olhar para o mundo.

O carnavalesco Jack Vasconcellos, que volta à escola após cinco anos, pega essa provocação artística e a transforma em festa. A ideia é fazer o público todo pensar: será que a gente não supervalorizou demais o Hemisfério Norte? Será que o Brasil, a Argentina, o Peru, toda essa América do Sul que pulsa de vida e história, merecia mais respeito do que recebeu? E, claro, ironizar aquele viralatismo nosso, aquele de achar que o estrangeiro é sempre melhor.

A sintonia da Mocidade com o momento é quase que profética. Quando Bad Bunny tocou no intervalo do Super Bowl 2025, o porto-riquenho abriu a boca e nominou cada país da América Latina, do Brasil até o Canadá, fechando com um “Ainda Estamos Aqui” que ecoou por toda a América. Era exatamente isso: existe uma América que não é só os Estados Unidos. E existe uma América Latina que segue pulsando, criando, resistindo.

A verde e branca da Zona Oeste quer usar a linguagem do carnaval, aquela que só Rio de Janeiro sabe fazer, para cobrar reparações históricas, questionar a hegemonia colonial que persiste até hoje e propor um futuro onde a gente se olhe com mais respeito. Não é pouca coisa não. É carregar para a Sapucaí toda uma reflexão sobre identidade, poder e o jeito que a gente lida com ser latino-americano numa estrutura que sempre nos colocou no degrau de baixo.